Aneurisma de artéria esplênica, renal ou poplítea: quando tratar e quando acompanhar

Em resumo

A maioria dos aneurismas das artérias do abdome é encontrada por acaso, em uma tomografia ou ultrassom pedidos por outro motivo. Achar um aneurisma não significa operar. A decisão depende de seis coisas: qual artéria, o diâmetro, a forma, se está crescendo, se é um aneurisma verdadeiro ou um pseudoaneurisma e quem é o paciente — em especial, se é uma mulher que pode engravidar. As diretrizes da Society for Vascular Surgery (SVS) trazem números para cada artéria, e é por eles que a conversa começa.

Dr. Igor explica, em poucos minutos, o que é um aneurisma vascular.

Recebi um laudo com “aneurisma”. O que eu olho primeiro?

Quando um paciente chega com o exame na mão, estas são as perguntas que o laudo precisa responder antes de qualquer decisão:

  1. Qual artéria? Esplênica, renal, hepática, tronco celíaco, mesentérica ou poplítea têm limites de tratamento diferentes.
  2. Qual o maior diâmetro, em milímetros? É o número que define a conduta.
  3. É verdadeiro ou pseudoaneurisma? O pseudoaneurisma (ou falso aneurisma) costuma surgir depois de inflamação, como na pancreatite, trauma ou procedimento, e tende a ser tratado em qualquer tamanho.
  4. Qual a forma? O aneurisma fusiforme dilata a artéria por igual, em toda a volta; o sacular forma uma bolsa de um lado só. A forma também entra na decisão.
  5. Há exame anterior para comparar? Crescimento pesa tanto quanto tamanho.
  6. Há trombo dentro do aneurisma? Na poplítea, isso muda tudo (veja abaixo).

Se o laudo não traz essas informações, o próximo passo costuma ser uma angiotomografia ou angiorressonância, que mostram o aneurisma e as artérias ao redor.

Quando tratar: os números, artéria por artéria

ArtériaTratar quandoPode acompanhar quando
Esplênica (verdadeiro)maior que 3 cm, crescimento documentado, sacular ou sintomasmenor que 3 cm, fusiforme, estável e sem sintomas
Renalmaior que 3 cm, crescimento documentado, sacular ou sintomasmenor que 3 cm, fusiforme, estável e sem sintomas
Hepáticamaior que 2 cm, crescimento acima de 0,5 cm por ano, sacular ou sintomasmenor que 2 cm, fusiforme e estável (em quem tem doenças graves, o limite de diâmetro sobe para 5 cm)
Tronco celíacomaior que 2 cm, crescimento documentado, sacular ou sintomasmenor que 2 cm, fusiforme, estável e sem sintomas
Mesentérica superiorsempre, em qualquer tamanho, ao diagnóstico—
Jejunais e ileaismaior que 2 cm, sacular ou sintomasmenor que 2 cm, fusiforme e sem sintomas
Cólicassempre, em qualquer tamanho—
Qualquer pseudoaneurisma visceralsempre, em qualquer tamanho—
Poplítea2 cm ou mais, mesmo sem sintomasmenor que 2 cm, sem trombo com sinais de embolia

Diâmetro, crescimento e sintomas seguem as diretrizes da SVS de 2020 (aneurismas viscerais) e de 2022 (poplítea). A forma sacular entra como critério de indicação na minha avaliação: a própria diretriz registra que o ensino clássico associa essa forma a maior risco de ruptura, embora a literatura ainda não seja conclusiva. Os números valem para quem tem risco cirúrgico aceitável; a decisão final é sempre individual.

As exceções que mudam a conduta

Mulher que pode engravidar. É a exceção mais importante. Na gestação, o aneurisma de artéria esplênica ou renal pode romper mesmo pequeno, e a ruptura nessa fase tem mortalidade materna e fetal historicamente muito alta. Por isso, a diretriz recomenda tratar o aneurisma esplênico verdadeiro em qualquer tamanho em mulheres em idade fértil, e sugere o mesmo para o renal. Quem planeja engravidar e tem um aneurisma desses deve conversar com o cirurgião vascular antes da gestação.

Pseudoaneurisma. Não segue a regra de tamanho: a diretriz recomenda tratar em qualquer medida, porque pode romper mesmo pequeno.

Aneurisma de artéria mesentérica superior. É tratado ao diagnóstico, em qualquer tamanho.

Sintomas. Dor abdominal nova, sangramento ou qualquer sinal de ruptura mudam a conversa de “quando” para “agora”, em qualquer tamanho.

Displasia fibromuscular. Em mulheres em idade fértil com aneurisma renal, a diretriz sugere investigar outras artérias (cérebro, intestino, bacia) com um exame de imagem, porque essa doença costuma aparecer em mais de um lugar.

Quando acompanhar — e de quanto em quanto tempo

Acompanhar não é esquecer. Um aneurisma pequeno e estável precisa de exame de imagem periódico, para confirmar que não cresce. Depois de tratado por embolização, a diretriz sugere nova imagem a cada 1 a 2 anos, para conferir se o aneurisma continua excluído. O intervalo certo para cada caso depende da artéria, do tamanho e da velocidade de crescimento.

Poplítea: o risco não é romper, é entupir

O aneurisma da artéria atrás do joelho se comporta de outro jeito. Ele raramente rompe; o perigo é formar coágulo por dentro, que pode entupir a artéria ou soltar fragmentos para a perna e o pé. Por isso, a diretriz de 2022 recomenda:

  • Tratar a partir de 2 cm, mesmo sem sintomas, para reduzir o risco de trombose e de perda do membro.
  • Considerar tratar abaixo de 2 cm quando há trombo dentro do aneurisma e suspeita de embolia, ou quando as artérias da perna já estão comprometidas.
  • Examinar a outra perna e a aorta em todo paciente com aneurisma de poplítea, porque pode haver aneurisma também nesses locais.
  • Acompanhar todo ano quem não for operado: sintomas, pulsos, trombo e diâmetro. Vale saber a escala do risco que se está acompanhando: em quem não trata, as complicações de coágulo e a amputação aparecem, em média, por volta dos 18 meses, e, num dos estudos reunidos nessa metanálise, cerca de metade dos pacientes teve alguma complicação em cinco anos. É esse número que explica por que o limiar aqui é mais baixo que nas artérias do abdome.
  • Tratar com urgência quando a perna fica fria, dolorida ou sem força — é sinal de obstrução aguda.

Embolização, stent revestido ou cirurgia: como se escolhe

Não existe técnica melhor para todos. A escolha segue a anatomia:

  • Embolização com molas: o cateter chega por dentro da artéria e preenche o aneurisma, que deixa de receber sangue. É frequente nos aneurismas esplênicos e nos ramos pequenos.
  • Stent revestido: reveste a parede por dentro e mantém o sangue passando para o órgão. Útil quando é preciso preservar a artéria principal, como no rim.
  • Cirurgia aberta: ainda é a primeira opção em muitos aneurismas de poplítea, quando o paciente tem uma veia safena adequada para a ponte, e em anatomias que não permitem a via endovascular.

Na poplítea, vale conhecer os dois lados dessa escolha. A metanálise que sustenta a diretriz de 2022 mostra que a cirurgia aberta mantém a ponte aberta com mais frequência em um ano e exige menos reintervenções — e, do outro lado, que a internação é mais longa e a complicação de ferida é cerca de cinco vezes mais frequente. Em três anos, a diferença de patência deixa de ser clara, e mortalidade e amputação não diferem entre as duas vias. A certeza dessas estimativas é baixa: é uma escolha de caso, não uma regra.

Nos procedimentos endovasculares, o acesso é por punção, geralmente na virilha ou no braço. O que decide entre eles é a artéria, o órgão que ela irriga e o risco de cada paciente.

Quando vale uma segunda opinião

Aneurisma visceral é doença pouco frequente, e é comum haver dúvida sobre a melhor conduta. Vale buscar outra avaliação quando:

  • a indicação de cirurgia contraria os números acima, para mais ou para menos;
  • você é mulher, tem um aneurisma esplênico ou renal e planeja engravidar;
  • o laudo fala em pseudoaneurisma;
  • o aneurisma cresceu entre dois exames;
  • a proposta é retirar um órgão (como o baço) e você quer saber se há alternativa que o preserve.

Leve para a consulta todos os exames de imagem, com as imagens e não só os laudos.

O que a pesquisa acrescenta

Parte da minha formação em pesquisa foi dedicada às artérias periféricas: publicamos o caso de um pseudoaneurisma infeccioso (micótico) do tronco tibiofibular como primeira manifestação de endocardite, o oitavo descrito nessa localização (Rev Inst Med Trop São Paulo, 2012) — e vale a distinção que esta página faz lá em cima: era falso aneurisma, e é por isso que foi tratado independentemente do tamanho. Publicamos também um estudo experimental com stents revestidos em lesões de artéria (Clinics, 2011), que mostrou algo útil na hora de escolher a técnica: o reparo endovascular funcionou em todas as lesões que pegavam menos da metade da circunferência da artéria, e em apenas 1 de 5 quando a artéria estava completamente seccionada. É um estudo experimental, em animais, com 20 casos — não autoriza uma regra clínica, mas aponta a direção: quanto mais a lesão se aproxima de uma secção completa, menos o stent revestido tende a dar conta, e mais a conversa volta para a cirurgia. E a angioplastia de uma artéria ciática persistente, variação anatômica rara (J Vasc Bras, 2011).

Perguntas frequentes

Aneurisma de artéria esplênica é perigoso? Na maioria das vezes, não exige cirurgia: os pequenos, fusiformes e estáveis são acompanhados com exames. A indicação de tratar surge acima de 3 cm, quando cresce, quando tem forma sacular, quando dá sintomas, e na mulher que pode engravidar — situação em que a diretriz recomenda tratar em qualquer tamanho.

Qual o tamanho do aneurisma renal para operar? Pela diretriz da SVS, acima de 3 cm em quem tem risco cirúrgico aceitável, ou em qualquer tamanho quando há sintomas, e também em mulheres em idade fértil. Na minha avaliação, a forma sacular também indica tratamento.

Aneurisma visceral tem sintomas? Quase sempre, não. A maioria é descoberta por acaso. Dor abdominal nova ou sangramento em quem sabe ter um aneurisma exigem avaliação imediata.

Precisa tirar o baço para tratar o aneurisma esplênico? Nem sempre. Muitos são tratados por dentro da artéria, com embolização, e a necessidade de retirar o baço depende da localização do aneurisma e da circulação de cada paciente. A diretriz registra que preservar a própria artéria esplênica é dispensável, porque as artérias gástricas curtas mantêm a circulação. O que o paciente deve saber é que a embolização pode causar infarto parcial do baço — numa série cirúrgica recente, em cerca de um terço dos embolizados —, em geral sem consequência maior, mas é parte da conversa.

O aneurisma de poplítea pode romper? Raramente. O risco principal é a trombose, que pode entupir a artéria da perna. Por isso ele é tratado a partir de 2 cm, mesmo sem sintomas.

Quem tem aneurisma de poplítea precisa examinar outras artérias? Sim. A diretriz recomenda examinar a outra perna e a aorta abdominal.

Agende uma avaliação

Se você recebeu um laudo com aneurisma e quer entender o seu caso, a avaliação é feita na Clínica Endovascular São Paulo. Veja o guia completo de aneurismas e agende pela clínica.

Referências

  1. Chaer RA, Abularrage CJ, Coleman DM, et al. The Society for Vascular Surgery clinical practice guidelines on the management of visceral aneurysms. J Vasc Surg. 2020;72(1S):3S-39S. doi:10.1016/j.jvs.2020.01.039
  2. Farber A, Angle N, Avgerinos E, et al. The Society for Vascular Surgery clinical practice guidelines on popliteal artery aneurysms. J Vasc Surg. 2022;75(1S):109S-120S. doi:10.1016/j.jvs.2021.04.040
  3. Beuschel B, Nayfeh T, Kunbaz A, et al. A systematic review and meta-analysis of treatment and natural history of popliteal artery aneurysms. J Vasc Surg. 2022;75(1S):121S-125S.e14. doi:10.1016/j.jvs.2021.05.023
  4. Ishikawa N, Inuzuka K, Sano M, et al. Retrospective study of 43 cases of visceral artery aneurysms: evaluation of surgical indications based on the 2020 revised guidelines of the Society for Vascular Surgery. Ann Vasc Dis. 2025;18(1). doi:10.3400/avd.oa.24-00128
  5. Belczak SQ, Sincos IR, Teivelis MP, et al. Mycotic aneurysm of the tibioperoneal trunk: a first manifestation of an infected endocarditis. Rev Inst Med Trop São Paulo. 2012;54(3):171-174. doi:10.1590/s0036-46652012000300010
  6. Belczak S, da Silva ES, Aun R, Sincos IR, et al. Endovascular treatment of peripheral arterial injury with covered stents: an experimental study in pigs. Clinics. 2011;66(8):1425-1430. doi:10.1590/s1807-59322011000800020
  7. Szejnfeld D, Belczak SQ, Sincos IR, Aun R. Angioplasty of a persistent sciatic artery: case report. J Vasc Bras. 2011;10(2):168-172. doi:10.1590/s1677-54492011000200013
Equipe cirúrgica reunida em centro cirúrgico durante uma cirurgia vascular

Prof. Dr. Igor Rafael Sincos — Médico · CRM-SP 117.876
Cirurgia Vascular — RQE 52745
Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular — RQE 527451
Ecografia Vascular com Doppler — RQE 527452

Harvard