Em resumo
Varizes não são todas iguais, e o tratamento não se escolhe pela aparência da perna: se escolhe pelo mapa do ultrassom com Doppler. É ele que mostra se a safena está com refluxo, quais veias alimentam as varizes visíveis e se existe alguma obstrução mais acima. A partir daí, três perguntas resolvem a consulta: isso é saúde ou é estética, qual técnica fecha a veia doente com menos tempo parado e o que muda no risco de voltar. O laser é uma das respostas — não a única, e nem sempre a primeira.
Estética ou saúde? A pergunta que muda tudo
A doença venosa tem uma escala clínica usada no mundo inteiro, a CEAP. Ela vai de vasinhos (C1) e varizes (C2) até inchaço (C3), alterações de pele (C4) e úlcera (C5 e C6). Quem está em C1 trata por estética, e está tudo bem. A partir de C3, e sobretudo quando a pele do tornozelo escurece ou endurece, o tratamento deixa de ser cosmético e passa a evitar uma úlcera.
Essa diferença é a que mais se perde na conversa do dia a dia — e é sobre isso este post:
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O que o ultrassom decide
O exame não serve para “confirmar que tem variz”: isso o olho já viu. Ele serve para responder:
- A safena tem refluxo? Qual delas — magna, parva, acessória — e em que extensão.
- De onde vêm as varizes visíveis? Nem toda variz na panturrilha vem da safena; pode vir de uma perfurante ou de veias pélvicas.
- Há sinal de trombose antiga ou obstrução? Isso muda a conduta por completo.
- A veia profunda está competente? É ela que sustenta o retorno depois do tratamento.
Sem esse mapa, qualquer indicação é chute — inclusive a indicação de “só fazer as aplicações”.
Laser, radiofrequência, espuma, cola ou cirurgia?
Hoje, as diretrizes europeias de doença venosa crônica (ESVS, 2022) colocam as técnicas que fecham a veia por dentro, com calor — laser e radiofrequência — como primeira escolha para a safena com refluxo, magna ou parva, à frente tanto da cirurgia aberta quanto da espuma. É o grau mais forte do documento. E o próprio texto da diretriz faz a ressalva que eu considero honesta: a cirurgia moderna, bem indicada e feita depois de um mapeamento cuidadoso por ultrassom, tem resultado parecido em cinco anos. A vantagem do calor está na recuperação, não em fechar melhor. Mas a decisão real é mais fina que isso:
- Termoablação (laser ou radiofrequência): fecha a safena por dentro, com anestesia local e pouco tempo parado. É o padrão atual para refluxo de safena.
- Espuma guiada por ultrassom: boa para veias tortuosas, recidivas e complementos. Costuma exigir mais de uma sessão.
- Cola (cianoacrilato): dispensa a anestesia ao longo da veia; útil em casos selecionados.
- Cirurgia: continua tendo lugar — anatomia desfavorável, calibres muito grandes, recidivas complexas.
- Vasinhos: são a etapa final, quase sempre depois de tratar o que os alimenta.
O que eu mesmo medi
Conduzi um estudo clínico comparando radiofrequência com a cirurgia clássica de safena — a retirada completa da veia, da virilha ao tornozelo, que era o padrão no Brasil — em 49 pacientes com doença de leve a moderada, acompanhados por até 3 anos (einstein, 2019). Foi o primeiro ensaio randomizado brasileiro a fazer essa comparação. O resultado clínico, a qualidade de vida e a recidiva ficaram semelhantes entre as duas técnicas. A diferença apareceu na recuperação: quem fez radiofrequência ficou fora das atividades 8,6 dias em média, contra 20,1 dias no grupo operado, e passou menos tempo internado — 0,7 contra 1,5 dia.
Ou seja: a vantagem do endovenoso não é “fechar melhor”. É fechar igual, com menos interrupção da vida. Esse é o argumento honesto.
Quando a variz já virou ferida
Aqui a evidência é mais dura. No estudo EVRA (450 pacientes, 20 centros do Reino Unido), tratar o refluxo nas primeiras duas semanas, em vez de esperar a úlcera cicatrizar, encurtou o tempo de fechamento: mediana de 56 dias contra 82. E rendeu mais dias livres de úlcera no primeiro ano — 306 contra 278. É dessa evidência que vem a recomendação europeia de tratar o refluxo cedo na úlcera aberta.
E no ensaio VUERT, que conduzi com a equipe da USP (56 pacientes, Phlebology, 2021), a ablação por radiofrequência da safena e das perfurantes, somada à compressão, reduziu a recidiva da úlcera e melhorou o escore de gravidade venosa. Vale dizer também o que o estudo não mostrou: a proporção de úlceras fechadas em 6, 12 e 24 semanas foi parecida nos dois grupos. O que ficou mais rápido foi a velocidade de fechamento, e por margem estreita. A leitura que levo para o consultório é essa: quem decide a recidiva é o refluxo tratado; quem fecha a ferida é a compressão bem feita.
Tradução para a consulta: úlcera venosa não é caso de esperar. Compressão é indispensável, mas sozinha ela trata a consequência, não a causa.
O pós: o que realmente pesa no resultado
Meia de compressão, caminhar no mesmo dia, evitar ficar parado em pé por longos períodos. Parece pouco, mas é a parte que mais se negocia na vida real — e tudo bem: dá para adaptar o protocolo sem perder o resultado, desde que a conversa seja honesta.
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Vai voltar?
Essa é a pergunta mais frequente e a mais mal respondida. A veia tratada, na grande maioria dos casos, não volta: ela é fechada e absorvida. Uma minoria reabre — no meu estudo, 2 em cada 31 pernas tratadas ao longo de 3 anos —, e é por isso que o controle com ultrassom existe. O mais comum, no entanto, é a doença continuar em outras veias, porque a tendência é individual e não se apaga com o procedimento. Por isso:
- o acompanhamento com ultrassom faz parte do tratamento, não é venda de retorno;
- tratar cedo, quando ainda é C2, dá menos trabalho do que tratar C4;
- quem tem história familiar forte deve ser reavaliado periodicamente, mesmo sem queixa.
Vasinhos: o que esperar de verdade
Vasinhos respondem bem, mas exigem sessões, e o resultado aparece ao longo de semanas. Tratar vasinhos sem antes resolver a veia que os alimenta é a receita clássica para o retorno rápido. E existe um detalhe que ninguém conta: pele bronzeada, inflamação recente e alguns medicamentos mudam o resultado — por isso a época do ano entra no planejamento.
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Quando vale uma segunda opinião
- foi indicada cirurgia sem ultrassom com Doppler recente, feito por quem vai tratar;
- disseram que “não tem o que fazer” porque a safena é muito calibrosa;
- você fez aplicações várias vezes e os vasinhos voltam sempre no mesmo lugar;
- tem ferida no tornozelo tratada só com curativo e meia, sem ninguém avaliar o refluxo;
- a proposta é tratar as duas pernas no mesmo dia sem discutir recuperação e riscos.
Leve o laudo e as imagens do ultrassom, além da lista de medicamentos em uso.
Perguntas frequentes
Laser é melhor que cirurgia? Nas comparações diretas, o resultado clínico é semelhante; a diferença está na recuperação. No estudo que conduzi, quem fez radiofrequência voltou antes às atividades, com a mesma taxa de sucesso.
Dói? A termoablação é feita com anestesia local e sedação leve. O desconforto maior costuma ser nos primeiros dias, controlado com analgésico simples.
Quanto tempo parado? A maioria retoma atividades leves no mesmo dia ou no dia seguinte. Esforço físico e academia voltam em etapas, conforme a orientação.
Preciso usar meia depois? Sim, por um período definido caso a caso. É a parte que mais influencia o inchaço e o conforto nas primeiras semanas.
Vasinhos somem em uma sessão? Não. São necessárias sessões, e o intervalo entre elas faz parte do tratamento.
Posso tratar no verão? Pode, com cuidados de sol e compressão. Mas se o objetivo é estético, o planejamento costuma render mais começando fora do pico de exposição solar.
Convênio cobre? O tratamento da doença venosa com indicação clínica costuma ter cobertura; o que é puramente estético, não. A clínica orienta o processo de autorização.
Agende uma avaliação
Se você quer entender o que o seu ultrassom mostra e qual técnica faz sentido no seu caso, a avaliação é feita na Clínica Endovascular São Paulo. Veja o guia completo de varizes e agende.
Referências
- De Maeseneer MG, Kakkos SK, Aherne T, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2022;63(2):184-267. doi:10.1016/j.ejvs.2021.12.024
- Sincos IR, Baptista APW, Coelho Neto F, et al. Prospective randomized trial comparing radiofrequency ablation and complete saphenous vein stripping in patients with mild to moderate chronic venous disease with a 3-year follow-up. einstein (São Paulo). 2019;17(2):eAO4526. doi:10.31744/einstein_journal/2019ao4526
- Puggina J, Sincos IR, Campos W Jr, et al. A randomized clinical trial of the effects of saphenous and perforating veins radiofrequency ablation on venous ulcer healing (VUERT trial). Phlebology. 2021;36(3):194-202. doi:10.1177/0268355520951697
- Gohel MS, Heatley F, Liu X, et al. A Randomized Trial of Early Endovenous Ablation in Venous Ulceration (EVRA). N Engl J Med. 2018;378(22):2105-2114. doi:10.1056/NEJMoa1801214

Prof. Dr. Igor Rafael Sincos — Médico · CRM-SP 117.876
Cirurgia Vascular — RQE 52745
Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular — RQE 527451
Ecografia Vascular com Doppler — RQE 527452