Em resumo
Dor pélvica que piora no fim do dia e depois de ficar muito tempo em pé, peso na região íntima, varizes que aparecem na vulva, no glúteo ou na parte interna da coxa, inchaço só da perna esquerda: esses sinais têm uma causa vascular possível, e ela costuma passar despercebida por anos. Duas situações diferentes se escondem aí. Uma é a veia da pelve que reflui e congestiona. A outra é a veia ilíaca comprimida, que dificulta a saída do sangue — May-Thurner quando ainda não trombosou, Cockett quando trombosou ou deixou sequela. Tratam-se por caminhos opostos: uma se fecha, a outra se abre.
Por que demora tanto para chegar ao diagnóstico
Porque a queixa principal é ginecológica, e a investigação começa — corretamente — pela ginecologia. Quando ultrassom, exame clínico e, às vezes, laparoscopia não encontram a causa, a paciente costuma receber a mensagem de que “não há nada”. A veia raramente é lembrada.
Há um detalhe que explica parte do atraso: a nomenclatura antiga confunde. Em 2021, um painel internacional publicou uma classificação nova para os distúrbios venosos pélvicos — a SVP, que descreve sintomas, varizes e mecanismo em vez de usar nomes de síndromes. O próprio documento diz o motivo: nomes como May-Thurner, congestão pélvica e Nutcracker escondem a relação entre as queixas e o mecanismo por trás delas.
Na prática, o que eu procuro na consulta é a combinação: queixa que piora ao longo do dia e melhora deitada, varizes em lugar atípico e, muitas vezes, história de gravidez.
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O exame não é “achar a compressão”. É provar que ela importa
Este é o ponto mais importante desta página, e o que mais gera tratamento desnecessário por aí.

Um estudo clássico avaliou 50 tomografias de pessoas sem nenhum sintoma venoso: 24% tinham mais de 50% de compressão da veia ilíaca esquerda, e 66% tinham mais de 25%. A compressão média foi de 35,5% — e nas mulheres foi bem maior que nos homens: 41,2% contra 27,0%. Os próprios autores concluíram que essa compressão pode ser um padrão anatômico normal que vinha sendo tratado como doença. Ou seja: compressão é achado comum em gente saudável, e mais comum ainda em mulher. Encontrar compressão numa imagem não é, por si, indicação de stent.
O que sustenta a indicação é o conjunto:
- sintoma compatível e persistente, que atrapalha a vida;
- exame de imagem mostrando a compressão e, sobretudo, as veias colaterais que se formaram para desviar o sangue;
- ultrassom intravascular (IVUS) quando a dúvida permanece: ele mede a veia por dentro e mostra a redução real de área. No ensaio que comparou os dois métodos em 100 pacientes, a flebografia encontrou lesão em 51 e o IVUS em 81 — e o plano de tratamento mudou em 57 casos depois do IVUS, sendo que em 3 deles foi para não fazer o procedimento;
- exclusão das outras causas — a investigação ginecológica bem feita continua valendo.
Sem esse conjunto, a resposta certa é acompanhar, não tratar.
Dois problemas, dois tratamentos opostos
Refluxo e congestão pélvica → fechar. Quando as veias ovarianas ou pélvicas refluem e formam um emaranhado que dói, o tratamento é a embolização: por punção, molas ou agente esclerosante fecham a veia doente. O sangue passa a voltar pelos caminhos normais.
Compressão ilíaca → abrir. Quando a veia está comprimida e isso tem repercussão, o tratamento é o stent venoso, que sustenta a veia aberta. Nos casos com trombose associada, entram também a retirada do coágulo e o tratamento da sequela.
Tratar um com a técnica do outro é erro grave: fechar veia em quem tem obstrução piora a drenagem; abrir veia em quem tem refluxo não resolve a dor.
O que raramente se conta sobre o stent
Stent venoso é um bom tratamento, e tem preço. Ele precisa de anticoagulante por um período, de acompanhamento com ultrassom e de uma conversa honesta sobre complicações. Publicamos com a equipe um caso de trombose venosa profunda da ilíaca do lado oposto depois de um stent posicionado na confluência com a veia cava (J Vasc Bras, 2023) — justamente para documentar que a posição do stent importa e que o lado sadio pode ser afetado.
Quem indica stent precisa explicar isso antes, não depois.
Antes do cateter, existe tratamento clínico
Nem toda paciente com dor pélvica de origem venosa precisa de procedimento, e nem toda que precisa pode fazer agora. Para esse intervalo existe tratamento com remédio, e vale dizer o que ele tem e o que não tem.
Uma revisão sistemática de 2025 reuniu 11 estudos e 748 pacientes. O mais estudado é a fração flavonoica purificada micronizada, um venotônico. O efeito sobre a dor e a qualidade de vida aparece de forma consistente, e a segurança é boa. A ressalva vem dos próprios autores: os estudos são de baixa qualidade, e dois dos três ensaios randomizados têm alto risco de viés. A conclusão deles é medida — o flavonoide deve ser considerado em quem tem sintoma e não se qualifica para o procedimento, não quer fazer, ou está esperando.
Vale o mesmo aviso para a área inteira: uma revisão de 2024 registra que existe apenas um pequeno número de ensaios randomizados sobre congestão pélvica, e que ainda falta evidência de alto nível. Prometer certeza aqui é prometer o que a literatura ainda não tem.
Quando não tratar
- compressão encontrada por acaso, sem sintoma que a explique;
- dor pélvica cuja causa ginecológica ainda não foi investigada;
- varizes pélvicas sem repercussão clínica, em quem não tem dor;
- paciente sem condições de manter o anticoagulante e o acompanhamento que o stent exige.
Nesses casos, a conduta é acompanhar e reavaliar — e isso também é tratamento.
Gravidez, anticoncepcional e o que muda
A gravidez é o fator que mais aparece na história dessas pacientes: o volume de sangue aumenta, as veias pélvicas dilatam e nem sempre voltam ao calibre anterior. Por isso, a decisão de tratar costuma considerar o desejo de engravidar de novo — vale conversar sobre isso na consulta, porque muda o momento do tratamento.
Quando vale uma segunda opinião
- você tem dor pélvica crônica há anos e ninguém investigou as veias;
- foi indicado stent com base apenas numa tomografia, sem exame que mostre repercussão;
- fez embolização e a dor não mudou — pode haver compressão associada não tratada;
- tem inchaço só da perna esquerda, repetidas vezes, e a explicação foi “é normal”;
- teve trombose na perna esquerda e ninguém investigou a veia ilíaca depois.
Leve as imagens dos exames, não só os laudos, e o relatório de procedimentos anteriores.
Perguntas frequentes
Varizes pélvicas são a mesma coisa que May-Thurner? Não. Varizes pélvicas costumam vir de refluxo nas veias da pelve; May-Thurner é compressão da veia ilíaca esquerda. Podem coexistir, e é por isso que o exame precisa olhar os dois.
Toda compressão da veia ilíaca precisa de stent? Não. Compressão sem sintoma é comum em pessoas saudáveis. O stent entra quando há sintoma compatível e repercussão comprovada.
A embolização tira o útero ou afeta a fertilidade? Não é uma cirurgia ginecológica: ela fecha veias dilatadas, não órgãos. Ainda assim, o plano deve considerar o desejo de engravidar.
Dói? Quanto tempo de recuperação? Os dois procedimentos são feitos por punção, com anestesia local e sedação. A maioria das pacientes volta às atividades leves em poucos dias, com orientação individual.
Preciso tomar anticoagulante depois? Depois do stent venoso, sim, por um período definido caso a caso. Depois da embolização, em geral não.
Como sei se melhorei? Pela dor e pela função, medidas antes e depois — não pela imagem isolada.
Agende uma avaliação
Se você convive com dor pélvica sem diagnóstico, varizes em locais atípicos ou inchaço de uma perna só, a avaliação é feita na Clínica Endovascular São Paulo. Veja a página da clínica sobre síndromes venosas abdominais e agende.
Referências
- Meissner MH, Khilnani NM, Labropoulos N, et al. The Symptoms-Varices-Pathophysiology classification of pelvic venous disorders: A report of the American Vein & Lymphatic Society International Working Group on Pelvic Venous Disorders. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2021;9(3):568-584. doi:10.1016/j.jvsv.2020.12.084
- Kibbe MR, Ujiki M, Goodwin AL, et al. Iliac vein compression in an asymptomatic patient population. J Vasc Surg. 2004;39(5):937-943. doi:10.1016/j.jvs.2003.12.032
- Della Costa AT, Sincos IR, Riscado LVS. Trombose venosa profunda de veia ilíaca contralateral após stent venoso posicionado na confluência ilíaco-cava: um desafio terapêutico. J Vasc Bras. 2023;22:e20220162. doi:10.1590/1677-5449.202201621
- Gagne PJ, Tahara RW, Fastabend CP, et al. Venography versus intravascular ultrasound for diagnosing and treating iliofemoral vein obstruction (VIDIO). J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2017;5(5):678-687. doi:10.1016/j.jvsv.2017.04.007
- Gloviczki ML, Demetres MR, Salazar G, Khilnani NM. Venoactive drugs for venous origin chronic pelvic pain in women: A systematic review. Phlebology. 2025;41(7):579-599. doi:10.1177/02683555251411027
- Alsannan B, Alzeeny A, Etrusco A, et al. Diagnosis and Management of Pelvic Congestion Syndrome: Comprehensive Review. Gynecol Obstet Invest. 2024;89(6):437-444. doi:10.1159/000539931

Prof. Dr. Igor Rafael Sincos — Médico · CRM-SP 117.876
Cirurgia Vascular — RQE 52745
Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular — RQE 527451
Ecografia Vascular com Doppler — RQE 527452