Em resumo
Trombose venosa profunda é um coágulo numa veia profunda, quase sempre da perna. O tratamento básico é o anticoagulante, e ele resolve a maioria dos casos. A pergunta que eu faço primeiro não é o tamanho do coágulo: é onde ele está. Na panturrilha, nem todo caso precisa de remédio. Na coxa e atrás do joelho, anticoagular é o tratamento, e retirar o coágulo por cateter não trouxe vantagem nos estudos. Na virilha e na pelve — a trombose chamada iliofemoral — a retirada do coágulo pode reduzir a gravidade da sequela em pacientes selecionados, com um preço: mais sangramento. Escolher o lado certo dessa balança, e investigar por que a trombose apareceu, é o que define o resultado a longo prazo.
A pergunta que organiza a decisão: onde está o coágulo?
O ultrassom Doppler mostra se há trombose e até onde ela vai. A partir daí, a trombose se divide em três territórios, cada um com uma conduta diferente:
- Distal — só nas veias da panturrilha.
- Femoropoplítea — na veia de trás do joelho e na veia da coxa.
- Iliofemoral — na veia da virilha (femoral comum) ou na veia ilíaca, já dentro da pelve.
As duas últimas são chamadas de trombose proximal. A diretriz europeia de cirurgia vascular (ESVS, 2021) recomenda que o ultrassom examine a perna inteira, porque a conduta depende do ponto mais alto que o coágulo alcança.
Na panturrilha: nem toda trombose precisa de anticoagulante
O estudo CACTUS sorteou pacientes de baixo risco, com uma primeira trombose só na panturrilha, sem câncer e sem trombose anterior, para receber anticoagulante ou placebo por seis semanas. O anticoagulante não reduziu de forma significativa a subida do coágulo para veias maiores nem a embolia (3% contra 5%), e aumentou o sangramento (4% contra nenhum caso). O estudo foi interrompido com metade dos pacientes previstos, o que limita a conclusão — mas ela aponta numa direção clara.
Por isso a ESVS recomenda decidir caso a caso, pesando sintomas, fatores de risco para o coágulo crescer e risco de sangrar. Quem não recebe anticoagulante precisa de novo ultrassom da perna inteira em cerca de uma semana. Não tratar não é abandonar: é vigiar com data marcada. Quando o tratamento é indicado, a duração recomendada é de três meses.
Na coxa e atrás do joelho: anticoagular — e o cateter não ajudou
Na trombose femoropoplítea, o anticoagulante é o tratamento. A maioria dos pacientes pode fazê-lo em casa, sem internação — recomendação da ESVS e da Sociedade Americana de Hematologia (ASH, 2020) para os casos sem complicação.
A dúvida é se retirar o coágulo por cateter melhoraria a evolução. O estudo ATTRACT, sorteado e multicêntrico, respondeu. Entre os 300 pacientes com trombose limitada à coxa e ao joelho, a retirada por cateter não reduziu a sequela, não aliviou a dor nem o inchaço mais rápido e aumentou o sangramento. A conclusão dos próprios autores é direta: a retirada por cateter não deve ser usada como tratamento inicial da trombose femoropoplítea. A ESVS, desde 2021, recomenda o mesmo.
Na virilha e na pelve: quando retirar o coágulo entra na conversa
Aqui a evidência precisa ser lida inteira.
- O CaVenT, na Noruega, testou a trombólise por cateter (remédio que dissolve o coágulo, aplicado dentro dele) em 209 pacientes com trombose alta, iniciada em até 21 dias de sintoma. Em dois anos, a sequela foi menos frequente com o cateter (41% contra 56%), e a diferença aumentou em cinco anos (43% contra 71%). Em números de decisão: uma redução absoluta de 28%, ou seja, é preciso tratar 4 pacientes para evitar uma sequela. A qualidade de vida, porém, não foi diferente entre os grupos, e a forma grave da sequela apareceu em 4 pacientes do grupo tratado contra 1 do controle.
- O ATTRACT, nos Estados Unidos, com 692 pacientes, não reduziu a ocorrência de sequela no conjunto (47% contra 48%) e teve mais sangramento grave nos primeiros dez dias (1,7% contra 0,3%). Mas, entre os 391 com trombose iliofemoral, o quadro se divide: a sequela apareceu quase igual nos dois grupos (49% contra 51%), e o que mudou foi a gravidade — a forma moderada ou grave caiu de 28% para 18%. Também aliviou mais rápido a dor e o inchaço e melhorou a qualidade de vida ligada às veias.
Traduzindo: a retirada do coágulo não evita que a sequela apareça, mas, na trombose iliofemoral, pode deixá-la mais leve. É por isso que a ESVS recomenda considerar a retirada precoce em pacientes selecionados com trombose iliofemoral sintomática — e a diretriz europeia de medicina vascular (ESVM, 2025) acrescenta que essa decisão deve envolver especialista vascular e ser feita em centro com experiência.
O que pesa na seleção, no meu raciocínio: tempo de sintoma (os estudos incluíram tromboses recentes — no CaVenT, até 21 dias), intensidade do inchaço e da dor, idade e expectativa de vida — quem é jovem tem mais anos para conviver com a sequela —, risco de sangramento e se existe uma compressão na veia ilíaca que explique a trombose.
Existe uma exceção que não espera: a flegmasia, forma rara e grave em que a perna inteira incha, fica arroxeada e dolorosa, porque quase toda a drenagem está bloqueada. Aqui a retirada do coágulo é discutida com urgência.
Por que a trombose apareceu: a veia ilíaca comprimida
Trombose na perna esquerda, sem causa aparente, levanta uma pergunta: a veia ilíaca esquerda está sendo comprimida pela artéria que passa por cima dela? É a síndrome de May-Thurner, e a ESVS a cita entre as causas de trombose por estase do sangue.
Quando o coágulo é retirado e a compressão aparece por baixo, ela pode ser tratada com stent venoso no mesmo procedimento. Vale dizer com franqueza: a ESVS reconhece que não há estudo comparando colocar ou não colocar stent depois da retirada do coágulo, nem evidência de que o stent dispense o anticoagulante. Escrevi sobre essa decisão na página de varizes pélvicas e compressões venosas.
Síndrome pós-trombótica: a sequela que se decide no começo
A sequela de que esses estudos falam é a síndrome pós-trombótica: perna que incha, pesa e dói ao fim do dia, pele que escurece e, nos casos graves, ferida. Ela aparece meses depois, quando a veia fica estreitada ou com as válvulas danificadas.
Para quem já tem a sequela e uma obstrução na veia ilíaca, a novidade é o C-TRACT (2026). Em 225 pacientes com síndrome pós-trombótica moderada ou grave, o stent ilíaco somado a antitrombótico reforçado, comparado ao cuidado padrão, reduziu a gravidade dos sintomas e melhorou a qualidade de vida em seis meses — com mais sangramento (11,6% contra 3,6%). Como o braço testado juntou as duas coisas, parte desse sangramento pode vir do antitrombótico, e não do stent. O seguimento ainda é curto.
A meia de compressão: o que mudou depois do SOX
Por décadas, a meia elástica foi receitada a todos depois da trombose, para prevenir a sequela. O estudo SOX testou isso contra uma meia placebo em 806 pacientes: a meia não preveniu a síndrome pós-trombótica (14,2% contra 12,7%).
As diretrizes leram o resultado de formas diferentes. O CHEST (2016) sugere não usar a meia de rotina só para prevenir a sequela. A ESVS (2021) mantém a compressão precoce para aliviar dor e inchaço e diz que a meia pode ser considerada para reduzir a sequela — e, com base no estudo IDEAL DVT, que quem tem poucos sintomas pode parar em seis a doze meses, em vez de dois anos.
Na prática: a meia é para o sintoma. Se ela alivia, use. Se não faz diferença, não é obrigação para o resto da vida.
Trombofilia e câncer: quando investigar e quando não
Trombofilia é a tendência herdada ou adquirida de formar coágulo. A pergunta certa não é “tenho ou não tenho”, e sim “o resultado muda o meu tratamento?”.
- Trombose com causa clara — cirurgia, gesso, internação: a ESVS não recomenda testar.
- Trombose sem causa aparente: o teste genético de rotina também não é recomendado; ele entra quando há parente de primeiro grau com trombose, ou quando a decisão de parar o anticoagulante depende do resultado. A ASH (2023) segue a mesma lógica.
- O momento importa: vários exames saem alterados na fase aguda e durante o uso de anticoagulante. Teste feito na hora errada gera diagnóstico errado.
Câncer é a outra dúvida. Entre quem tem trombose sem causa aparente, 4% a 12% recebem um diagnóstico de câncer durante o tratamento, segundo a ESVS. Mesmo assim, o estudo SOME mostrou que acrescentar tomografia de abdome e pelve à investigação básica não trouxe benefício clínico. A recomendação é história e exame bem feitos, exames básicos e o rastreamento indicado para a idade e o sexo em dia — não uma bateria de exames.
A duração do anticoagulante segue a mesma lógica da embolia: depende da causa, não do susto. Expliquei isso na página de embolia pulmonar.
O que eu mesmo publiquei
Retirar o coágulo tem preço, e parte da minha pesquisa é sobre ele. Com a equipe, analisamos 40 pacientes com trombose iliofemoral tratados por trombectomia mecânica reolítica (AngioJet) e encontramos relação entre o procedimento e lesão renal aguda (einstein, 2026). Esse aparelho fragmenta o coágulo com jato de salina em alta pressão e provoca algum grau de hemólise — e os fatores que encontramos apontam para esse caminho: queda importante da hemoglobina logo depois do procedimento, cirurgia de grande porte anterior e função renal reduzida no dia seguinte. É um estudo retrospectivo e pequeno, e o risco que ele descreve é desse dispositivo, não de toda trombectomia mecânica; o que ele acrescenta é um cuidado concreto no planejamento — o sangue que se perde no procedimento e o rim de quem já chega frágil.
Também documentamos uma complicação do stent venoso — trombose da ilíaca do lado oposto quando o stent avança além do ponto recomendado (J Vasc Bras, 2023). Os dois trabalhos dizem a mesma coisa: técnica boa é a que vem com o custo explicado antes.
Quando não intervir
- trombose só na panturrilha, com poucos sintomas e sem fatores de risco — vigiar com ultrassom pode bastar;
- trombose femoropoplítea: anticoagular é o tratamento;
- risco de sangramento alto, que supera o ganho esperado;
- quem não consegue manter o anticoagulante e o acompanhamento que um stent exige.
Nesses casos, anticoagulante, acompanhamento e retorno com ultrassom são o tratamento — não uma desistência.
Sinais de embolia: quando ir direto ao pronto-socorro
O risco da trombose é um pedaço do coágulo chegar ao pulmão. Se você tem trombose — ou suspeita — e aparecer falta de ar súbita, dor no peito que piora ao respirar fundo, desmaio, coração disparado ou tosse com sangue, procure um pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU). Não espere a consulta. Não é para alarmar: é um sinal que não se observa em casa.
Quando vale uma segunda opinião
- trombose na virilha ou na pelve, com perna muito inchada, e ninguém discutiu se retirar o coágulo faria sentido;
- foi indicada retirada do coágulo para trombose só da coxa ou da panturrilha;
- trombose na perna esquerda, sem causa aparente, e a veia ilíaca não foi avaliada;
- a perna continua inchada e dolorida meses depois e a explicação foi “é assim mesmo”;
- foi pedida uma bateria de exames de trombofilia ou de câncer sem que ninguém explicasse o que o resultado mudaria.
Leve as imagens do ultrassom ou da tomografia, não só os laudos, e a lista de medicamentos.
Perguntas frequentes
Trombose venosa profunda tem cura? A maioria dos pacientes se recupera bem com o tratamento correto. O que pede atenção é a causa — para não repetir — e a sequela, que pode aparecer meses depois.
Toda trombose precisa de internação? Não. A maioria dos casos sem complicação pode ser tratada em casa, com anticoagulante e acompanhamento próximo.
Quando o coágulo precisa ser retirado por cateter? Em pacientes selecionados com trombose iliofemoral — na virilha ou na pelve —, sobretudo com sintomas intensos e baixo risco de sangramento. Na coxa e na panturrilha, os estudos não mostraram vantagem.
Preciso usar meia elástica? Para aliviar dor e inchaço, ajuda. Para prevenir a sequela, um grande estudo com meia placebo não mostrou benefício. A decisão é pelo sintoma.
Preciso fazer exame de trombofilia? Na maioria das tromboses com causa clara, não. O exame entra quando o resultado muda o tratamento, e no momento certo.
Agende uma avaliação
Se você teve trombose e quer entender se o seu caso pede só anticoagulante ou se a retirada do coágulo faz sentido — ou se convive com a perna inchada depois de uma trombose —, a avaliação é feita na Clínica Endovascular São Paulo. Veja a página da clínica sobre trombose e agende.
Referências
- Kakkos SK, Gohel M, Baekgaard N, et al. Editor’s Choice — European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2021 Clinical Practice Guidelines on the Management of Venous Thrombosis. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2021;61(1):9-82. PMID 33334670. doi:10.1016/j.ejvs.2020.09.023
- Righini M, Galanaud JP, Guenneguez H, et al. Anticoagulant therapy for symptomatic calf deep vein thrombosis (CACTUS): a randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet Haematol. 2016;3(12):e556-e562. PMID 27836513. doi:10.1016/S2352-3026(16)30131-4
- Ortel TL, Neumann I, Ageno W, et al. American Society of Hematology 2020 guidelines for management of venous thromboembolism: treatment of deep vein thrombosis and pulmonary embolism. Blood Adv. 2020;4(19):4693-4738. PMID 33007077. doi:10.1182/bloodadvances.2020001830
- Vedantham S, Goldhaber SZ, Julian JA, et al. Pharmacomechanical Catheter-Directed Thrombolysis for Deep-Vein Thrombosis (ATTRACT). N Engl J Med. 2017;377(23):2240-2252. PMID 29211671. doi:10.1056/NEJMoa1615066
- Kearon C, Gu CS, Julian JA, et al. Pharmacomechanical Catheter-Directed Thrombolysis in Acute Femoral-Popliteal Deep Vein Thrombosis: Analysis from a Stratified Randomized Trial. Thromb Haemost. 2019;119(4):633-644. PMID 30699446. doi:10.1055/s-0039-1677795
- Comerota AJ, Kearon C, Gu CS, et al. Endovascular Thrombus Removal for Acute Iliofemoral Deep Vein Thrombosis. Circulation. 2019;139(9):1162-1173. PMID 30586751. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.118.037425
- Enden T, Haig Y, Kløw NE, et al. Long-term outcome after additional catheter-directed thrombolysis versus standard treatment for acute iliofemoral deep vein thrombosis (the CaVenT study): a randomised controlled trial. Lancet. 2012;379(9810):31-38. PMID 22172244. doi:10.1016/S0140-6736(11)61753-4
- Haig Y, Enden T, Grøtta O, et al. Post-thrombotic syndrome after catheter-directed thrombolysis for deep vein thrombosis (CaVenT): 5-year follow-up results of an open-label, randomised controlled trial. Lancet Haematol. 2016;3(2):e64-e71. PMID 26853645. doi:10.1016/S2352-3026(15)00248-3
- Schlager O, Campello E, Madaric J, et al. 2025 ESVM Guidelines on interventional treatment of venous thromboembolism. Vasa. 2025;54:365-381. PMID 40587333. doi:10.1024/0301-1526/a001211
- Vedantham S, Kahn SR, Marston WA, et al. Endovascular Therapy for Post-Thrombotic Syndrome — A Randomized Trial (C-TRACT). N Engl J Med. 2026;394:2293-2304. PMID 41972998. doi:10.1056/NEJMoa2519001
- Kahn SR, Shapiro S, Wells PS, et al. Compression stockings to prevent post-thrombotic syndrome: a randomised placebo-controlled trial (SOX). Lancet. 2014;383(9920):880-888. PMID 24315521. doi:10.1016/S0140-6736(13)61902-9
- Kearon C, Akl EA, Ornelas J, et al. Antithrombotic Therapy for VTE Disease: CHEST Guideline and Expert Panel Report. Chest. 2016;149(2):315-352. PMID 26867832. doi:10.1016/j.chest.2015.11.026
- Ten Cate-Hoek AJ, Amin EE, Bouman AC, et al. Individualised versus standard duration of elastic compression therapy for prevention of post-thrombotic syndrome (IDEAL DVT): a multicentre, randomised, single-blind, allocation-concealed, non-inferiority trial. Lancet Haematol. 2018;5(1):e25-e33. PMID 29217387. doi:10.1016/S2352-3026(17)30227-2
- Middeldorp S, Nieuwlaat R, Baumann Kreuziger L, et al. American Society of Hematology 2023 guidelines for management of venous thromboembolism: thrombophilia testing. Blood Adv. 2023;7(22):7101-7138. PMID 37195076. doi:10.1182/bloodadvances.2023010177
- Carrier M, Lazo-Langner A, Shivakumar S, et al. Screening for Occult Cancer in Unprovoked Venous Thromboembolism (SOME). N Engl J Med. 2015;373(8):697-704. PMID 26095467. doi:10.1056/NEJMoa1506623
- Frade VC, Bertoldi V, Lobato Filho MA, Gornati VC, Campos Júnior W, Wolosker N, Sincos IR. Assessment of predictive factors for acute kidney injury after thrombectomy using AngioJet for iliofemoral deep vein thrombosis. Einstein (São Paulo). 2026;24:eAO2438. PMID 42659450. doi:10.31744/einstein_journal/2026AO2438
- Della Costa AT, Sincos IR, Riscado LVS. Deep venous thrombosis of the contralateral iliac vein after stenting of the iliocaval confluence: a therapeutic challenge. J Vasc Bras. 2023;22:e20220162. PMID 37576724. doi:10.1590/1677-5449.202201621

Prof. Dr. Igor Rafael Sincos — Médico · CRM-SP 117.876
Cirurgia Vascular — RQE 52745
Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular — RQE 527451
Ecografia Vascular com Doppler — RQE 527452